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segunda-feira, 14 de outubro de 2019

EM CIMA DA HORA

publicado em 02/08/2016

Atual sistema econômico está derrotado

Economistas são taxativos: financeirização da economia travou sistema produtivo e gerou níveis absurdos de desigualdade social; saída passa por luta social articulada para promover mudanças radicais.
 
São Paulo – “O que vai acontecer com a vida dos trabalhadores e dos cidadãos com a derrocada de um sistema econômico que na verdade já acabou?” A questão foi levantada pelo economista da Unicamp Luiz Gonzaga Belluzzo a um plenário lotado durante o painel Transformações no Sistema Financeiro e seus Impactos no Mundo do Trabalho. A mesa foi a primeira do seminário Sistema Financeiro e Sociedade, realizado nesta sexta-feira 29, em decorrência da 18ª Conferência Nacional dos Bancários, em São Paulo.
 
Belluzzo (foto à esquerda) compôs a mesa com Ladislau Dowbor (foto abaixo), outro renomado economista, e sustentou que a financeirização da economia, colocada em prática desde o começo dos anos 1980, não tem mais possibilidade de gerar e redistribuir riqueza entre a população mundial.
 
A livre circulação de capitais, exemplificou, provocou um fluxo financeiro para os Estados Unidos que sustentou a expansão do consumo dos estadunidenses por meio da concessão de crédito barato. Em contrapartida, moveu o setor produtivo daquele país para outros partes do mundo, sobretudo a China, o que derrubou o rendimento médio dos trabalhadores.
 
“Essa financeirização mudou completamente a forma de funcionamento das empresas” afirmou Belluzzo. “Mesmo aquelas que são produtivas se dedicam à acumulação de lucros financeiros, e isso tem impacto no emprego, porque para sustentar sua reputação no mercado como rentáveis, as empresas têm de reduzir o número de trabalhadores. Isso, sem falar na tecnologia de informação que reduz muito os empregos: reduzir ao mínimo as despesas com salários e aumentar o máximo os ganhos com as operações financeiras.”
 
Dowbor, professor de Economia da PUC, reforçou que o problema ocorre também no Brasil, e de uma forma ainda mais perversa. Enquanto na maior parte dos países de economia desenvolvida a taxa básica de juros gira em torno do 0,5% a 1% ao ano, aqui esse índice está em 14,25%, o que inibe tanto o investimento do setor produtivo quanto taxas de crédito civilizadas.
 
“O banco antigamente fazia o trabalho de identificar bons projetos produtivos. Agora, para que arriscar? É só aplicar na taxa Selic, que rende 14,25% sem riscos de perdas. E isso derivou para o setor empresarial. Para que o empresário vai se matar com insegurança econômica e investir no setor produtivo se pode aplicar na Selic?”, ilustrou o professor.
 
A taxa básica de juros elevada acaba por encarecer o crédito na economia como um todo, enfatizou Dowbor, destacando que os juros do cartão de crédito no Brasil giram em torno dos 471% ao ano, enquanto nos Estados Unidos esse índice é de 16%. “O resultado prático é que em março de 2005, 19,3% da renda das famílias estava comprometida com o pagamento de dívidas, e passou para 46,5% em 2015. É um crédito que não facilita, mas extorque”, frisou, ao ressaltar que 19% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro foram para os bancos em 2015. “Não tem economia que funcione com esse sistema de juros escorchantes que se desenvolveu no Brasil.”
 
Belluzzo ressaltou que no ano passado os brasileiros pagaram R$ 510 bilhões com os juros dos títulos da dívida pública – remunerados pela taxa Selic. Mais do que a soma do orçamento da Saúde, Educação, Transporte, Desenvolvimento Social e Defesa.
 
“Quando você fala em juros, os economistas conservadores olham para o outro lado, não querem discutir esse assunto, porque é incômodo. Mas nós temos de bater nessa tecla. Isso está na fonte do enriquecimento e do empobrecimento indevidos”, afirmou Belluzzo.
 
Dowbor criticou ainda o sistema tributário do Brasil, que praticamente isenta de taxação o capital financeiro e incide pesadamente sobre o consumo. “Termina o rico proporcionalmente pagando muitos menos impostos do que o pobre. Aí você fechou o caixão. E dizem que a culpa é do governo [anterior]. Quando a Dilma tentou baixar os juros a 7,25%, começou guerra. Pode se dizer a guerra do rentismo contra todo os processos produtivos.”
 
O economista da PUC citou ainda o estudo da ONG Oxfam baseado em dados do banco Credit Suisse, que apontou: a riqueza de 62 bilionários supera a renda de 3,6 bilhões de pessoas. “Eles produziram tudo isso? Que nada. Eles se apropriaram através de um conjunto de mecanismos financeiros.” Para Dowbor, a sociedade precisa se apropriar do conhecimento e fazer um esforço conjunto para reorganizar o Sistema Financeiro Nacional. “Temos de promover o resgate da dimensão cidadã do bancário, do trabalhador.” 
 
Atraso – Belluzzo comparou a situação do Brasil, onde o governo que tomou o poder busca a aniquilação de direitos sociais, a outros países do mundo nos quais a discussão gira em torno de temas como redução da jornada de trabalho e o fortalecimento do sistema de seguridade social, além de uma mudança de postura individual, como a diminuição do consumo, por exemplo.
 
“Essa macroeconomia sugerida por esse governo não vale mais nada, porque não tem mais capacidade operativa, muitos menos explicativa. O que a economia capitalista criou a longo dos últimos 200 anos foi a abundância sem que se possa realizar isso dentro dos marcos das relações sociais. Criou-se uma riqueza material enorme, com um custo enorme para o meio ambiente e perda humana gigantesca, porque as pessoas não podem mais sobreviver dignamente nesse sistema. Isso está colocado para nós, e não adianta a gente recorrer a fórmulas velhas. Temos de pensar o socialismo do século 21. Como vai ser? Tem de ser o socialismo da liberdade, da diversidade e da igualdade”, apontou. “Estamos propondo resolver esses problemas a partir da dissolução desse projeto econômico que não dá mais. A luta social bem articulada é a saída.”
 
Fonte: Seeb/SP
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